Análise exclusiva por Marcelo Antonio
CEO da MADS Câmbio
Especialista em câmbio e estruturação internacional de negócios.
O sistema financeiro global vive uma transformação sem precedentes. De um lado, os bancos tradicionais, com décadas de solidez, regulação e confiança. De outro, as fintechs, nascidas digitais, ágeis e centradas no cliente.
Esse embate vai muito além da tecnologia. É uma disputa por relevância, dados e poder. E o resultado pode redefinir a forma como pessoas e empresas movimentam dinheiro, acessam crédito e integram suas operações financeiras em escala global.
O novo campo de batalha: infraestrutura e dados
A inovação deixou de ser periférica. Hoje, ela é a infraestrutura do sistema financeiro.
No Brasil, o Pix transformou o comportamento financeiro da população. O sistema 24/7, instantâneo e gratuito redefiniu o custo do dinheiro e obrigou bancos a repensar tarifas, produtos e canais. Logo depois, o Open Finance abriu o compartilhamento de dados com consentimento do cliente, permitindo o surgimento de fintechs cada vez mais competitivas. E no horizonte, o Drex e o Real Digital, promete tokenizar ativos e operações com smart contracts, acelerando a convergência entre finanças e tecnologia.
Na Europa, o SEPA Instant Credit Transfer o “Pix europeu”, que conecta dezenas de países em uma rede única de pagamentos instantâneos. A nova regulação obriga bancos a ofertar o serviço em até 10 segundos por transação, 24 horas por dia. É o maior avanço de interoperabilidade bancária desde a criação do euro.
Nos Estados Unidos, o FedNow, lançado em 2023, começou a redesenhar os trilhos da liquidação instantânea. Em paralelo, o Open Banking Act propõe que os dados financeiros pertençam ao cliente, e não à instituição. Nesse cenário, gigantes como a JPMorgan já anunciaram que cobrarão fintechs pelo acesso a informações bancárias, inaugurando uma nova frente de disputa: a monetização dos dados.
A aliança invisível: governos e bancos se unem para reequilibrar o jogo
Nos últimos anos, um novo movimento ganhou força. Governos e bancos tradicionais se unindo para reescrever as regras. Enquanto as fintechs conquistavam clientes, agilidade e reputação, os governos percebiam uma perda dupla: arrecadação tributária e poder de supervisão.
Para os reguladores, o crescimento das fintechs representa um dilema: menor arrecadação tributária, riscos de liquidez e crédito, e pressão política. Por isso, assistimos a uma onda global de medidas para “nivelar o campo regulatório”, mas que, na prática, criam barreiras de entrada.
Na Europa, o Banco Central Europeu propôs supervisão direta sobre fintechs de pagamento sob o regime SEPA. Nos Estados Unidos, o Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) exige licenciamento e auditorias periódicas para fintechs de crédito. No Brasil, o Banco Central discute taxas de supervisão e contribuições regulatórias para instituições de pagamento, alegando “isonomia com os bancos”.
Os bancos tradicionais perceberam que a regulação é sua vantagem competitiva natural. Já possuem capital mínimo, reservas compulsórias e estruturas jurídicas robustas e agora transformam isso em escudo. Três estratégias se consolidam: lobby regulatório, custo regulatório como barreira e aquisição estratégica. O resultado é sutil, mas poderoso: a re-regulamentação do mercado, disfarçada de “estabilidade financeira”.
Fintechs na corda bamba
As fintechs agora enfrentam um paradoxo inevitável: se forem pequenas, não atingem escala nem rentabilidade; se forem grandes, passam a ser vistas como ameaça e sofrem as mesmas exigências dos bancos que desafiaram. A ironia é clara: o sistema que elas modernizaram agora tenta limitá-las com as mesmas regras que as tornaram necessárias.
O que está em jogo
Essa nova fase da disputa não é apenas econômica é estrutural. Governos querem preservar o controle fiscal e monetário; bancos, suas margens e relevância. No meio, as fintechs precisam evoluir de startups para instituições sólidas, com governança e compliance equivalentes aos dos grandes conglomerados. O verdadeiro diferencial competitivo, daqui em diante, não será a tecnologia, e sim a capacidade de operar dentro das regras sem perder agilidade. Quem dominar essa combinação seja banco ou fintech liderará a próxima década do sistema financeiro global.
Conclusão: quem entende o movimento, lidera
A disputa entre bancos e fintechs transcendeu a competição comercial. Ela representa uma reconfiguração global de poder, onde tecnologia, dados e regulação se entrelaçam. No futuro próximo, bancos e fintechs não serão adversários isolados, mas pilares complementares de um mesmo ecossistema: os bancos sustentando a base regulatória e de liquidez, as fintechs entregando inovação, acessibilidade e conectividade.
O vencedor não será o mais tradicional nem o mais ousado será aquele que souber equilibrar tecnologia, governança e propósito, compreendendo que a verdadeira revolução financeira já começou silenciosa, mas irreversível.
Marcelo Antonio
CEO da MADS Câmbio
Especialista em câmbio, estruturação internacional e governança financeira global.

